ZERO E UM



“(…)Fui talvez o primeiro a dizer francamente que o funcionalismo ortodoxo não me interessava e que a beleza era também uma função, e das mais importantes na arquitetura. Na verdade, o ângulo reto nunca me entusiasmou, nem as formas rígidas e repetidas dos primeiros anos da arquitetura contemporânea. A curva me atrai intensamente com a sua sensualidade barroca, e a nossa tradição colonial e o próprio concreto armado,a sugerem e recomendam.” – Oscar Niemeyer

               

               Há muito tempo, a humanidade convive com constante polarização. O bem e o mal. O certo e o errado. O preto e o branco. O roza e o azul. O rico e o pobre. Dois elementos contrários parecem não poder coexistir. Funcionalidade ou beleza. Tradição ou inovação. Curvas ou ângulos retos. Dando como exemplo a arquitetura modernista de Niemeyer, observa-se, inicialmente, obras racionais e funcionais, presas a formas rígidas. Posteriormente, ele parece retomar características barrocas, valorizando as curvas e tratando a beleza como função.

               Quando pensamos em habitações populares, podemos traçar um paralelo com as obras de Oscar Niemeyer. Existe uma polarização evidente. Diferentemente dos condomínios de luxo, esses conjuntos habitacionais deixam de lado aspectos funcionais e beleza com o único objetivo de comportar o maior número de casas ou apartamentos possíveis. Suas formas são rígidas e repetidas. Tornam-se padronizados. Tal qual as combinações de zeros e uns num sistema digital. Em contraste a isso, propriedades mais opulentas, são cada vez maiores, com formas por vezes inovadoras, concentrando um menor número de pessoas. Podemos perceber, desse modo, a cultura do 0 e 1 criticada por Laurie Anderson em Home of the Brave.

               Contudo, é preciso perceber que duas ideias opostas, mesmo em contruções mais simples ou nas mais complexas, podem ser complementares. É do encontro entre extremos e da busca pelo equilíbrio entre eles, que surge a arquitetura.



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